Dia 3 – Tinta, madeira e a luta das cores

27 de novembro de 2024

O objetivo de hoje era finalizar a entalha da última matriz, fazer testes de cor e provas de impressão para ajustar o registro.

O que aconteceu

Terminei a entalha da última matriz — a do azul, que tinha mais detalhes do que as outras duas.

O Jordi cortou os trilhos de entintagem: duas tabuinhas da mesma altura que a matriz, para que o rolo passe com a tinta de forma uniforme.

Para fazer o detalhe dos corações das romãs, o Jordi me disponibilizou uma dremel com broca de 2 mm, que usei para fazer os furinhos. Aproveitei a mesma ferramenta para fazer os olhos dos pássaros — um recurso simples que resolve o que as goivas não conseguem com precisão.

Técnica — goma-laca

Ao terminar a entalha, passei goma-laca diluída a 50% com água nas matrizes, para impermeabilizar a madeira e evitar que absorva tinta em excesso. Para limpar o pincel depois do uso: diluir com álcool 96° e depois lavar com água e sabão.

À tarde, escolhi as cores que vou usar: além do turquesa, do azul e do vermelho, acrescentei um amarelo tipo cádmio. Com espátula, fiz testes num papel para ver o comportamento de cada tinta. O Jordi me apresentou também a tinta transparente, que serve para dar transparência às cores sem mudar o tom.

Uma descoberta importante nesse momento: o vermelho (corpo dos pássaros) não cobre suficientemente a tinta azul. Isso vai exigir ajuste.

Sistemas de registro

O Jordi cortou o papel para as primeiras provas. Imprimimos com a matriz azul usando dois sistemas diferentes de registro:

  • Registro de botões — na prensa tipográfica ao fundo do ateliê. O papel precisa ser cortado com margem para fazer os furos que encaixam no registro. A desvantagem é que depois da impressão há que recortar o papel.
  • Registro com papelão (Paraná) — no tórculo próximo à saída para o ateliê de estufa. Mais simples de executar e, para mim, o mais interessante pelos dois motivos. O registro com papelão é um sistema que poderei replicar em Brasília, sem depender de equipamento específico. Aprender técnicas portáteis é parte fundamental desta residência.

À noite, retirei os corpos dos pássaros da matriz azul.

Conversa com Miao

Pedi a opinião da Miao sobre a paleta que escolhi. Ela disse que todas as cores eram fortes demais — que eu precisaria decidir qual delas teria protagonismo e reduzir as outras (com branco ou com transparência).

O exercício

Segurando a prova de cores que eu tinha feito, ela me pediu para fechar os olhos e reabri-los de repente. O efeito foi imediato: todas as cores brigavam entre si, cada uma roubando importância da outra. Foi uma forma muito direta — e muito eficaz — de ver o que eu ainda não conseguia ver.

Materiais utilizados

  • Goivas PFEIL
  • Dremel (broca 2 mm)
  • Tintas Pantone
    • Blue Fluorescence 801
    • Rhodamine Red
    • Green 325
    • Amarelo P116
  • Rolo dureza 60° Shore
  • Goma-laca + álcool 96°
  • Papelão Paraná
  • Botões de registro

Aprendi muito hoje, especialmente com o registro de papelão. Escolher as cores pareceu fácil no momento. À noite vieram as inseguranças — e o insônia junto. As cores não saíam da cabeça, cada uma querendo ser protagonista, nenhuma cedendo espaço. Talvez seja esse o trabalho de amanhã: aprender a ceder.

Este projeto é realizado com o apoio do Programa Conexão Cultura DF e do Fundo de Apoio à Cultura do DF.