Dia 5 – Quatro cópias perfeitas

29 de novembro de 2024

Hoje era dia de fechar o primeiro ciclo da residência.

De manhã, cortei papel para dez cópias — usando a técnica de rasgado com régua que aprendi ontem, já com mais desenvoltura. Depois comecei a imprimir: primeiro o azul, com as ramagens e os bicos dos passarinhos, depois o vermelho dos corpos. O registro com papelão encaixou bem. Havia uma certa ansiedade acumulada desde os problemas de ontem, e ver as duas matrizes se alinhando foi um alívio genuíno.

À tarde, preparei a tinta verde para as romãs. Acrescentei tinta transparente ao Green 325 para baixar a intensidade — a lição da Miao ainda estava fresca. O verde precisava ceder espaço, não disputar. Com o ajuste, a paleta ficou mais harmônica, mais respirável.

Durante a impressão, precisei usar máscaras para conter o ruído nos fundos — primeiro com papel manteiga, depois com jornal — cobrindo as áreas ao redor da imagem para que a tinta não sujasse onde não devia. Um recurso simples, mas que faz diferença no resultado final.

Das dez cópias, quatro saíram perfeitas, sem nenhum erro de registro. As outras têm variações — algumas pequenas, outras nem tanto. Na xilogravura, especialmente com múltiplas matrizes, uma taxa assim já é uma vitória.

A obra

Esta xilogravura é policromática: cada cor vem de uma matriz diferente, três ao todo. Faz parte da série Fajalauza e representa cinco passarinhos em galhos de romãzeira — as ramagens e os bicos em azul, os corpos em vermelho, as romãs em verde. Três matrizes, três camadas, uma imagem só.

Olhando para a próxima obra

Ainda à tarde, antes de guardar tudo, o Jordi me ajudou a selecionar a madeira para o próximo trabalho. Escolhi um compensado de choupo de 5 mm — mais leve, mais adequado para o que tenho em mente. O papel desta vez será de maior qualidade (BFK Rives), em folhas de 120 x 80 cm, cortadas ao meio para uma obra final de 80 x 60 cm. A partir do tamanho do papel, calculamos a mancha gráfica: 68 x 50 cm. A madeira já está cortada.

Terminei o dia limpando as áreas de impressão e guardando as tintas que sobraram em envelopes de papel manteiga — vou usá-las na próxima obra.

Materiais utilizados

  • Papel Magnani Incisioni 220 g/m²
  • Papel ARCHES® BFK Rives (100% algodão)
  • Tintas Pantone e rolo 60° Shore
  • Papel manteiga e jornal (máscaras)
  • Compensado de choupo 5 mm (para a próxima obra)

Esta foi a primeira semana da residência, e também a primeira fase: fazer uma obra do início ao fim, num território em grande parte novo para mim. Aprendi transferência com medium acrílico e fotocópia, transferência por impressão fantasma, diferentes sistemas de registro, tintas que nunca tinha usado. Além das goivas, descobri que a dremel com broca fina abre possibilidades que as ferramentas tradicionais não alcançam — e que gravar madeira é uma conversa com os materiais.

A semana também me fez repensar ambições. Planejar uma paleta mais complexa, entender como as cores se relacionam sob pressão, decidir o que tem protagonismo e o que recua. Tudo isso me levou a uma conclusão que já estava tomando forma: o próximo trabalho será grande. Grande formato, maior complexidade, mais espaço para errar e acertar.

Este projeto é realizado com o apoio do Programa Conexão Cultura DF e do Fundo de Apoio à Cultura do DF.