Dia 4 – Erro, correção e luxo de aprender de perto

28 de novembro de 2024
Mais um dia de provas de impressão — desta vez com foco em afinar o registro.
Começamos pela manhã com algo simples: cortar o papel. O Jordi me mostrou a técnica de rasgado com régua — numa mesa grande, há duas fitas métricas coladas nas bordas, o que permite posicionar a régua em perpendicular e medir com precisão antes de rasgar.

Com o papel pronto, começaram as provas. Os fundos das estampas estavam sujando demais — um ruído visual que não deveria estar lá. Tive que voltar às matrizes e entalhar mais. O provável culpado: a madeira estava levemente curvada, o suficiente para que o rolo deixasse tinta em áreas que já tinham sido esvaziadas. Corrigi, testei de novo.
O erro de registro
As matrizes do azul e do verde encaixaram bem. A decisão de ontem — retirar os corpos dos pássaros da matriz azul — se mostrou acertada. Mas quando chegou a hora de imprimir a matriz do vermelho, algo estava errado. Os pássaros não encaixavam. Um erro de registro de pelo menos 4 mm, visível demais para ignorar.
Diagnosticando o problema
Ficamos um tempo tentando entender o que tinha acontecido. A hipótese mais provável: o erro veio da transferência da imagem. Foi justamente essa a matriz em que eu precisei retirar a primeira transferência e repetir o processo — e, ao que parece, alguma coisa se deslocou nesse caminho. Tentamos corrigir ajustando o registro manualmente, testando posições, mas o desvio era consistente. Não havia como consertar sem recomeçar.
O Jordi cortou uma placa nova.
A técnica de transferência entre matrizes
Desta vez, em vez de transferir o desenho diretamente do papel para a madeira, usamos a própria matriz azul como referência — ela já tinha os bicos dos pássaros e os espaços dos galhos entalhados, ou seja, a informação exata que eu precisava para alinhar os corpos.
O processo foi o seguinte: entintei a matriz azul e a imprimi sobre um papel fixo, com peso por cima para evitar qualquer movimento. Depois substituímos a matriz azul pela placa nova, ainda sem entalhe, e — com a tinta ainda úmida no papel — fizemos a transferência da imagem para a madeira por contato. A partir dessa marca, redesenhei os pássaros e entalhei a nova matriz.
O resultado foi muito mais preciso do que qualquer transferência que eu teria conseguido com papel e desenho. A lógica é simples: a referência vem da própria matriz, não de uma reprodução dela.

Agora estou na fase de impressão, afinando os detalhes antes de partir para as cópias finais.
Materiais utilizados
- Tórculo
- Madeira compensada de bordo
- Goivas e goiva elétrica
- Tintas Pantone
- rolo 60° Shore
- Registro com papelão de encadernação (papel Paraná)
- Registro de botões
- Papel Magnani Incisione 220 g/m²
Aprender essa técnica de transferência usando outra matriz foi o ponto alto do dia. É um método muito preciso para o trabalho com múltiplas matrizes, porque se ajusta melhor aos detalhes já entalhados — e creio que, sempre que se tem um bom desenho de base, é mais eficaz do que a transferência convencional com papel.
Trabalhar tão de perto com o Jordi é um privilégio. Aprende-se muito só de observar o processo.
Este projeto é realizado com o apoio do Programa Conexão Cultura DF e do Fundo de Apoio à Cultura do DF.




