Fechando o ciclo: a oficina de Xilogravura em Cores

2 de fevereiro de 2026

Nos dias 31 de janeiro e 1º de fevereiro de 2026, realizei a Oficina de Xilogravura em Cores com a Técnica de Matriz Perdida no Centro de Artes da Vila Telebrasília, em Brasília.

Por que essa oficina

Em 2024, fiz uma residência artística na Art Print Residence, em Arenys de Munt, perto de Barcelona. Foi lá que aprendi a técnica de matriz perdida com profundidade e assumi o compromisso, como contrapartida do projeto aprovado pelo Programa Conexão Cultura/FAC-DF, de compartilhar esse aprendizado com a comunidade do Distrito Federal.

A oficina foi gratuita e aberta a artistas visuais, estudantes, educadores e moradores da região, com vagas reservadas para grupos prioritários. Tivemos 20 participantes ao longo dos dois dias.

Como a oficina foi estruturada

A oficina aconteceu em dois dias, com carga horária total de 12 horas. Ministrei as aulas em parceria com Marlene Maciel, professora de xilogravura do Centro de Artes e minha mentora. Foi ela quem me introduziu à xilogravura, e ter ela ao meu lado nessa oficina foi muito especial.

Cada participante trouxe um desenho de casa para trabalhar durante os dois dias. Usamos blocos de MDF de 15×20 cm, goivas, tintas para xilogravura nas cores vermelho e preto, e papel A4.

Sábado: introdução e primeira impressão

Começamos o sábado com uma vivência de relaxamento guiada pela Marlene, que além de xilogravadora é arteterapeuta. Ela chegou com uma mala cheia de fitas coloridas, enroladas. Sentados em círculo, cada participante pegou uma fita e se apresentou brevemente para o grupo. Ao desenrolar a fita, encontrou uma palavra escrita nela: força, valentia, união, entre outras. Essa palavra seria sua companhia ao longo de toda a oficina.

Foi uma forma muito bonita de começar o dia. Acredito que ter aquela palavra presente durante o processo de criação foi significativo para cada participante, especialmente numa técnica em que cada decisão é irreversível e exige exatamente esse tipo de coragem.

Depois, apresentei a técnica da matriz perdida: o princípio básico é que usamos um único bloco para imprimir todas as cores. Após cada impressão, voltamos ao bloco e retiramos mais material — o que significa que cada versão anterior da matriz deixa de existir. É um processo irreversível, e isso muda completamente a forma como você planeja e toma decisões.

No período da manhã, os participantes transferiram seus desenhos para os blocos e começaram o entalhe da primeira camada. Marlene e eu circulamos pelas bancadas dando orientação individual.

À tarde, fizemos a primeira impressão em vermelho — que é sempre a cor mais clara, a que sai primeiro na técnica de matriz perdida. Ver o desenho aparecer no papel pela primeira vez é sempre um momento de muita satisfação para quem está aprendendo.

Encerramos o sábado com uma rodada de análise das impressões e planejamento dos cortes do dia seguinte.

Domingo: segunda camada e finalização

Nessa etapa, cada pessoa precisava decidir quais áreas retirar da madeira sabendo que o que sobrasse seria impresso em preto — a cor mais escura e a última do processo. É o momento em que a lógica da técnica fica mais clara na prática: você está, literalmente, destruindo a matriz para construir a obra.

À tarde, fizemos a impressão final em preto e cada participante viu sua xilogravura policromática completa pela primeira vez.

Como foi na prática

No geral, a oficina funcionou bem. O nível de experiência dos participantes era bem variado, havia pessoas que nunca tinham pegado numa goiva e outras que já tinham prática com gravura, e isso exigiu atenção individual da minha parte e da Marlene.

O tempo foi um pouco apertado. A técnica tem muitas etapas e, para quem está aprendendo pela primeira vez, cada uma delas demanda mais tempo do que o previsto. Em futuras edições, pretendo ajustar a programação para dividir a oficina em mais sessões. Mesmo assim, todos os participantes conseguiram concluir suas obras e sair com uma xilogravura policromática nas mãos.

O que funcionou muito bem foi o momento de exposição final. Ver todas as obras juntas, ouvir cada pessoa falar sobre suas escolhas e dificuldades, trocar impressões — esse momento valeu muito.

Agradecimentos

Quero agradecer ao Centro de Artes da Vila Telebrasília pela parceria fundamental para que essa oficina acontecesse. O Centro apoiou esta iniciativa cedendo suas instalações, infraestrutura e equipamentos, e sem esse suporte nada disso teria sido possível. É muito bom poder contar com um espaço que reafirma, na prática, seu compromisso com a formação artística e com a democratização do acesso à cultura no Distrito Federal.

E um agradecimento especial à Marlene Maciel, minha mentora, que aceitou o convite de ministrar a oficina comigo. A Marlene foi quem me introduziu à xilogravura, e tê-la ao meu lado nessa primeira experiência como instrutora foi, ao mesmo tempo, uma honra e uma segurança. Obrigada, Marlene.

 

Este projeto é realizado com o apoio do Programa Conexão Cultura DF e do Fundo de Apoio à Cultura do DF.